Andrei Barros Correia em 30/08/16

Não disponho de conhecimentos em psicanálise freudiana e lacaniana que me permitam, nem me sugiram, falar de narcisismo sob esta perspectiva pura. Narcisismo, embora impreciso e ambíguo conceitualmente, será usado sem pretensões de rigor teórico, portanto.

Identifico muito essa subjetividade narcísica com puerilidade, com desenvolvimento incompleto das pessoas mental e corporal. Pode ter algo a ver com substituição de pulsões e parece-me razoável supor que o narcísico tem muito a ver com a ausência de uma erótica, por ele substituída.

Em perspectiva psico-social, o espelho não é sua melhor metáfora, embora pictoricamente não haja outra mais bela e sugestiva. A parede é sua melhor metáfora, porque é o que faz a reflexão do som, veículo físico do discurso. No discurso, mais que na gestualística ou na indumentária, manifesta-se evidentemente o narcisismo como motor da ação. Esse discurso, na verdade, não é comunicação, ele não tem nem precisa de dialeticidade alguma.

O narcísico não precisa de aprovação ou desaprovação, ele precisa discursar, deitar fora uma narrativa que ele escuta atentamente, para ajustá-la mais e mais à sua satisfação, ao seu gozo de impor um discurso que não demanda feed back. Ao prazer narcísico basta obrigar o outro a escutar o discurso, via de regra uma narrativa dentro do acervo de taras normalizadas do emissor.

Nisso, faço um pequeno parêntesis para dizer que precisamente no aspecto antes apontado o narcisismo é muito cansativo nas relações cotidianas, pois leva pessoas a falarem longamente e frequentemente suas invariáveis taras.

Confunde-se com oportunismo, se pensarmos em móveis da ação humana que visa a prestígio e protagonismo, principalmente em momentos de confusão que, na dinâmica espetacular, tendem a ser todos. O discurso narcisista destaca-se, nesses dias atuais de golpe de Estado no Brasil.

A forma que assume é de análise arguta das sutilezas dos movimentos táticos acontecidos no processo. E esta análise é sempre conduzida no âmbito jurídico, segundo a lógica de tribunal, numa dialética previsível em que antecipações de movimentos pequenos são anunciadas como o caminho para as Índias.

 É interessante notar que essas análises descritivas são muito sagazes e corretas, no que são descritivas de um aspecto marginal do processo, geralmente bastante previsível, o jurídico. É o prazer do jogador de tabuleiro, enfim, de que o enxadrista é o protótipo. Jogo chato e tendente à autocelebração, foi alçado a grande metáfora da inteligência…

Esse despejar de analises descritivas argutas, precisas, que apontam o que houve e porque e dizem o que haverá em seguida no microssistema jurídico, é muito narcísico e o não comportar objeções evidencia-o. Não são coisas objetáveis porque geralmente exatas, factuais e não teóricas ou argumentativas. Claro que o analista não aceitará que sua análise descritiva não é uma proposição teórica ou mesmo que não é mais que constatação pontual, mesmo que inteligentemente construída.

Na situação política atual do Brasil, o predomínio deste jogo circular que toma o jurídico como âmbito exclusivo será danoso para a compreensão do processo político e histórico e retardará, senão impedirá, alguma reação ao projeto entreguista do país. Por outro lado, é receita quase certa de sucesso fugaz para seus praticantes, que brilham no ambiente espetacular que adora os narcisismos difusos.

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Andrei Barros Correia em 15/08/16

A regra do jogo está dada há mais de dois mil anos; o neo-platonismo do cristianismo nascente consolidou-a com o matrimônio de helenismo tardio mistificante e judaísmo. Essa é nossa condicionante mais ampla e, dentro dela, o moralismo a mais presente.

A perplexidade de muitos com o golpe de Estado acontecido no Brasil, a vitimar a democracia, a antecipar o perecimento da soberania, do patrimônio nacional e dos direitos sociais tem ensejado análises variadas. Claro que análises a partir da perplexidade ou surpresa provém do que se pode chamar campo esquerdista.

Algo é comum à maioria destas análises: a afirmação de erros do PT – partido alvo do golpismo de inspiração externa – e da consequente necessidade de realizar mea culpa. Ora, a presença constante destes dois elementos revela que as análises não percebem o modelo maior em que tudo está inserido e são impregnadas de moralismo.

A questão do cometimento de erros é de uma banalidade imensa e os analistas parecem esquecer-se que o erro, além de sempre presente nos processos históricos e políticos, é algo que individualmente dilui-se a ponto de apagar-se. O erro, como opção equivocada, é algo muito micro no contexto geral. O processo, visto de longe, já trás os erros, na medida em que traz suas condições prévias.

A conquista do poder e a tentativa de sua manutenção operando-se dentro das balizas discursivas da normalidade aceite traz o risco da pendularidade. Cedo ou tarde, a mesma base discursiva usada para alcançar o poder será usada para a derrubada do primeiro grupo. Ora, no caso específico, o PT serviu-se de discurso moralizante, acusando a cleptocracia que ele veio a apear temporariamente.

Foi deposto o governo a partir de uma situação de histeria generalizada criada pela mesma matriz discursiva moralizante. Pouco importam as diferenças qualitativas e quantitativas entre os dois grupos, ou seja, que um deles não tenha praticado desvios ou os tenha praticado em menores níveis. Um dos grupos dispõe da imprensa e, portanto, a verdade dele constrói-se como se quiser.

Mas, a política como campeonato de moral é um sistema que traz ínsitas as condições da pendularidade e assim os golpes nada têm de estranhos, mesmo quando vestem poucos disfarces. Eles ocorrerão sempre que a conquista e a manutenção do poder fundar-se na lógica do campeonato de ladroagem. A política assim baseada fragiliza-se e dá as condições para as ruturas periódicas.

Há uma diferença de oportunidades, porém. Aquilo que se chamam esquerdas – nacionalistas acho melhor – leva muito tempo a fermentar o caldo da narrativa acusatória moralista contra os grupos políticos que servem majoritariamente aos interesses do grande capital interno e externo. Ela não dispõe da grande imprensa, como é óbvio, e por isso seus períodos no poder são fugazes.

Depois de depostos governos nacionalistas, viceja o discurso do mea culpa e a piedosa assunção de erros. Isso, como é feito dentro do modelo moralizante, sem muita inteligência e sem nenhuma sinceridade, portanto, é uma inutilidade, tanto tática, como estratégica.

Mas, as personagens sentem-se reduzidas sem erros e sem pedidos de desculpas, porque o homem prefere dizer-se pecador a reconhecer-se mera engrenagem histórica; prefere o protagonismo, mesmo que seja na afirmação do cometimento de erros que nem compreende bem, a dizer que os erros são nada mais que consequências necessárias de causas previsíveis. É óbvio que pautar tudo pelo moralismo é andar numa linha de sucessivas quedas.

Os poderes longamente mantidos nunca se apoiaram no moralismo. Apoiaram-se na conquista, nas forças armadas, no domínio das corporações burocráticas estatais e no domínio da imprensa. A política consiste em escolhas que devem ser impostas por um grupo a outro e na exposição de quais benefícios resultarão destas escolhas e para quem; ela não é, enfim, uma disputa de probidade ou de moralismo.

A probidade dos gestores públicos é, de forma geral, em perspectiva histórica, um problema menor. Sempre houve e sempre haverá que se corrompa e quem desvie dinheiros públicos e isso obedece a um padrão relativamente estável. No caso de gestores públicos, a raiz do problema está no financiamento de campanhas eleitorais e na promiscuidade público privada: onde houver dinheiro e contratos, haverá subornos.

É previsível que os nacionalistas – esquerda, se se preferir – tentarão reerguer-se atuando no mesmo modelo, o que significa que, sem dispor dos construtores de narrativas – imprensa e corporações judiciais – isso demorará muito.

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Andrei Barros Correia em 08/08/16

Uma idéia inteligente pode ser enunciada como pérola de hipocrisia, se forem relativizadas as condicionantes históricas que gravitam em torno a ela. Os tempos presentes fornecem um exemplo: o esgotamento de recursos naturais do planeta e a degradação de qualidade de vida e o que seriam causas e soluções.

A degeneração das proposições encontra-se com alguma facilidade se se puserem as coisas em perspectiva cronológica, se se indagar quem deu causas e de quem é razoável pedir que dê soluções ou aja para minimizar efeitos. A estas ponderações matizantes opõe-se a propositura da idéia e das soluções como absolutos atemporais.

De tempos em tempos repete-se a obviedade – pouco percebida pelo grande número, é verdade – de que o modelo consumista esgota as possibilidade naturais do planeta e degrada a qualidade de vida das pessoas, sobretudo no plano psicológico. Em sequência a esta enunciação, vem a conclusão: a única saída para estancar estes processos é consumir menos. Isso é evidente.

Ocorre, inicialmente, que esses discursos não distinguem, na maioria das variações disponíveis, consumismo como fetiche inercial da sociedade de massas de consumo dos que recentemente passaram a poder consumir. Esta última ocorrência dá-se nos grupos dos que ascenderam economicamente em dado lugar e época e puseram-se a suprir necessidades que, para os grupos superiores, já haviam sido supridas e incorporadas ao normal da vida.

Contingentes enormes, na Ásia, na África e na América do Sul foram apresentados à possibilidade de terem coisas em suas casas, daquelas consideradas básicas nas classes médias de seus países e básicas em quase todas as classes nos países europeus e norte-americanos, exceptuando-se o México, claro. Esses contingentes tinham e têm uma imensa propensão marginal ao consumo, na medida em que partem de patamares muito baixos.

Assim, o discurso contrário ao consumismo – sem fazer a distinção para consumo, porque esta sutileza esclareceria o alcance da idéia – é profundamente desonesto, porque é uma proposta de moratória geral excludente. O geral aplicado a situações díspares e assimétricas é nada mais que desonestidade e hipocrisia.

Não haverá como exigir da China e da Índia, para ficar em dois exemplos, que travem o processo de melhora de condições materiais de centenas de milhões de pessoas que, há muito pouco, viviam deveras precariamente. Nem se lançando mão da chantagem ecológica será possível convencê-los a estancar este processo. Digo chantagem ecológica porque este argumento, usado nestas condições e com estas finalidades, é chantagem mesmo.

Os lugares que primeiramente viram o desenvolvimento industrial e que proveram as massas com máquinas de utilidade rapidamente integradas ao normal de subsistência são os responsáveis pelas maiores agressões ao meio ambiente, o que é uma obviedade. E, a agravar, observa-se que as degradações provenientes de exploração direta de recursos naturais foram mais intensas fora desses países.

Nesse panorama, é muito hipócrita até pelos elásticos parâmetros da nossa cultura judaico-cristã, que tem a hipocrisia como um dos pilares, exigir de todos sacrifícios iguais, como se todos se tivessem beneficiado igualmente da extração de recursos naturais do planeta.

O empobrecimento – forma alternativa de dizer travagem ao consumismo e ao consumo – é a única resposta eficaz para o problema do esgotamento do planeta e da qualidade de vida inclusivamente psíquica. Todavia, sua proposta, assim muito simplesmente, como um absoluto, sem exceções ditadas por condicionantes histórico econômicas, é mais do mesmo banditismo imperialista de sempre.

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Andrei Barros Correia em 20/07/16

O tempo cotidiano tornou-se algo confuso, desde o final da primeira grande guerra mundial. À sua aparente aceleração, percebida na sucessão vertiginosa de acontecimentos, corresponde, vistas as coisas mais ao de longe, o estabelecimento de uma espécie de presente contínuo.

Esta aceleração de acontecimentos foi tamanha que eles perderam significação na mesma progressão e perderam realidade. Foram oferecidos pelo sistema de comunicações do poder real e passaram a ser demandados pelos receptores da avalancha de informações. Resultou que, na percepção geral, esses acontecimentos não se ligam uns a outros, embora a narrativa de sua conexão também seja fornecida.

Várias coisas expostas juntas, da mesma maneira, tendem a parecer-se, por mais díspares que sejam. Assim, fatos da natureza, fatos políticos, fatos criminosos, fatos bélicos, fatos banais, tudo isso mostrado em constante e turbulenta sucessão, serão, ao mesmo tempo, conectados e desconectados. A conexão encontra-se no fornecedor, que faz a escolha deste modo operante de dar informações.

A desconexão é própria da falta de identidade de coisas por si díspares. Ela é real e, talvez, a única realidade nisso que se mostra. A narrativa oficial – não há termo mais adequado – proveniente dos media é também real, por assim ter-se tornado, construindo-se a si mesma. Porém, como discurso descritivo, nada tem de realidade.

O poder real e seus meios de comunicações divertem-se, creio eu, a seguir roteiros claramente enunciados e descritos por autores que foram lidos por poucos. Eles disseram, poucos os leram, pouquíssimos os compreenderam. Assim, é muito seguro fazer o mesmo de sempre, o que já foi descrito como estratégia de confusão e alienação.

Por conta de meia dúzia de tolos ou loucos que criam e reproduzem estórias de autópsias em seres extraterrestres, segredos ocultos em edificações e mundos submersos, todo um conjunto de escritos onde se entreveem aspectos da realidade da ação do poder real são postos na mesma bandeja e estigmatizados como teorias da conspiração.

As melhores aproximações da verdade, as maiores percepções de pedaços das tramas porque age o poder real, recebem rótulos de teorias conspiratórias e o consequente descrédito. Algumas, que não se conseguem ridicularizar facilmente, sofrem a objeção da falta de conclusões. Objeção pueril, posto que as teorias de conspiração nada tem de teorias, pois consistem em narrações descritivas; elas não visam ao fornecimento de conclusões.

Os chamados atentados terroristas, por exemplo, e especificamente os mais recentes em França, têm algo em comum: serviram aos interesses do governo francês, mais que a qualquer outro. Esses acontecimentos são sempre reivindicados por alguma organização, invariavelmente chamada de islamita radical, embora isso seja um significante sem significado. Ora, os atentados não revertem em qualquer benefício para essas tais organizações!

Ou seja, é preciso acreditar que provém das tais organizações islamitas radicais e, ao mesmo tempo, não, porque atenderiam apenas aos interesses pontuais de um sujeito rapidamente descrito como louco. Neste último caso ocorrido em Nice, essa desconexão é deveras evidente. Afirma-se que uma organização – essa gente do poder real tem o fetiche da organização – reivindicou o tal atentado, praticado de maneira muito criativa e incomum.

Ocorre que a personalidade criminosa e desviante do suposto autor individual é criada da forma clássica descrita por Foucault. Inicia-se a deposição de camadas descritivas de aspectos e fatos passados do fulano, de forma a tecer-lhe um perfil psicológico que se aceita como próprio do criminoso. Chega-se a isso mesmo relacionando coisas absolutamente sem relação, como são, por exemplo, as inclinações sexuais do fulano.

O jogo das contradições está presente, como sempre. E elas servem, paradoxalmente, para conferir coerência, algo extraordinário e possível neste ambiente de confusão espetacular. O sujeito é autor do atentado porque sua personalidade – criada a partir da enumeração de fatos desconexos a que se confere aparente conexão apenas por efeito da enumeração sequencial – era já criminosa.

Ocorre que, ao mesmo tempo, o sujeito é autor do atentado porque trabalha ou serve a uma organização cujas finalidades nada têm com a personalidade anteriormente e a priori criminosa do seu agente! Afinal, ele serve a si mesmo e a suas inclinações criminosas apriorísticas – reveladas por sua ambiguidade sexual – ou serve a uma organização que, como tal, deve-se supor movida por desígnios organizados?

Evidentemente que se objetará a perfeita coerência que há em uma organização servir-se de um maluco ou desviante em geral para seus fins terroristas. Faria sentido se sempre ocorresse assim e se as recompensas houvesse para ambos, no mesmo sentido. Ora, se o móvel da ação é basicamente subjetivo, psicológico, não há porque por-se a serviço de outro móvel, uma vez que o primeiro basta-se.

Mais relevante a se considerar são os efeitos destas ações. A França sairia do estado de emergência decretado pelo governo, em 26 de julho próximo. Agora, continuará em estado de emergência por mais seis meses, o que é ótimo para a celebração de contratos relativos a defesa e segurança sem que se oponham maiores questionamentos sobre utilidade e custos, para ficarmos em dois aspectos mais evidentes.

O poder real gosta de regimes autocráticos – evidentes ou disfarçados de democracias em momentânea suspensão – e o estado de emergência tendente à continuação é perfeito para que os objetivos do poder real sigam a serem atingidos com nenhuma objeção e com uma boa desculpa aparente: não se metam nisso, estamos cuidando da sua segurança!

Por mais que haja conflitos de interesses entre grupos definidos por matriz religiosa, como na objeção entre cristão e islamitas, não é razoável supor que estes grupos acreditem na utilidade de escaramuças que matam poucas pessoas. Isso, principalmente se se diz tratar-se de grupos organizados, com sofisticados meios de infiltração, de comunicações, de estocagem de armamentos, de explosivos e que tais. A ineficácia do ato terrorista contradiz o nível de sofisticação e organização que teriam.

Matar cem ou oitenta ou duzentas pessoas na França é dramático, mas o que isso traz de benefícios a qualquer grupo islâmico organizado que queira impor derrotas ao mundo europeu de matriz cultural cristã? Alguém dirá que esta assimetria em relação aos modos civilizados europeus – que consistem em despejar bombas de 500 Kgs guiadas a laser ou GPS – deve-se aos meios que cada parte possui.

Ora, mas anteriormente aceitou-se que os tais grupos islâmicos organizados têm enormes meios, pois são capazes de proezas fantásticas. Eles já sequestraram quatro aviões simultaneamente, nos EUA, com sequestradores que aprenderam a pilotar aviões em quinze dias; meteram um avião na sede do poder militar norte-americano, que tem defesas anti-aéreas, infiltraram agentes munidos de fuzis de assalto com sete quilos de aço em boate com detetores de metais e por aí vai…

O pior de tudo é ter de supor que esse pessoal, tão capaz para certas coisas e tão munido de audácia, é extremamente burro no que tange a calcular resultados, mesmo dispondo de toda a história para fornecer-lhes balizas seguras para tais análises.

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Andrei Barros Correia em 23/06/16

A contradição aparente permeia os processos desenvolvidos na dinâmica do espetáculo. No seu aspecto funcional, mostra-se muito óbvia: acrescenta camadas de confusão e, principalmente, de confusão cambiante. Cumpre, pois, a importante função de impedir ou, no mínimo, dificultar a percepção clara dos acontecimentos.

Porém, essas contradições são reais também, mesmo não deixando de ser aparentes. Conforme se as observe de perspectiva dinâmica ou estática, elas mostram-se aparentes ou reais, pois têm essas duas faces. Advirto que aparente não é o contrário de real, ou seja, não estou propondo uma oposição entre existência e inexistência, até porque à inexistência nada se opõe.

No processo em que se desenvolve o golpe de Estado no Brasil, parece ter-se chegado à fase da guerra interna total, do todos contra todos. Como supõe-se que os grupos envolvidos estão unidos para a consecução do fim, surge perplexidade quando suas comunhões de interesses mostram-se relativamente frágeis.

Na verdade, há três grandes grupos, ou linhas de atuação, que agem paralelamente e ajudam-se mutuamente em várias ocasiões. Porém, embora em última análise todos sirvam a um mesmo comando central, não é verdadeiro que suas relações sejam isentas de conflitos.

A finalidade primária do golpe de Estado é entregar aos estrangeiros as reservas de petróleo brasileiras e, subsidiariamente, desmontar outras articulações da soberania nacional, como as pesquisas nucleares e o reequipamento das forças armadas. Isso, em suma, é o que importa ao comando central do golpe, que não está no Brasil.

De certa forma, é possível afirmar a preponderância, entre os grupos operadores internos, da imprensa tradicional. Ela é que desencadeia os processos de destruição seletiva de pessoas ou grupos e ela é que protege também seletivamente pessoas e grupos. Ou seja, é o grupo agente mais ativamente definidor de estratégias e, por isso mesmo, o que mantém ligações mais estreitas com o comando externo.

A imprensa tradicional articula-se muito intimamente ao setor financeiro internacionalizado, ao mesmo tempo em que suga avidamente recursos públicos para suprir suas necessidades de fluxos de caixa. Sem publicidade estatal, estariam todos os principais meios golpistas impressos ou televisivos à beira da quebra.

Os grupos judicial e político, em condições ideais, conduziriam uma operação de destruição controlada dos representantes de interesses nacionalistas. Isto, porém, não foi possível. Dois fatores subjazem a esta impossibilidade: a enorme permeabilidade dos interesses políticos e o farisaísmo profundo de muitos agentes do grupo jurídico. Estas condições complicaram o processo.

A complicação do processo golpista, que em muito transmudou-se em algo pior que os célebres processos históricos de expurgos – inquisição católica, terror diretoriano e expurgos de Estaline são exemplos recentes – apresenta um sério problema para os grupos político e judicial, que podem ser inteiramente tragados na esquizofrenia que eles mesmos geraram. Para os interesses externos, contudo, isso não representa problemas; bem ao contrário, o caos serve-lhes bem.

Os grupos que vivem da institucionalidade, seja ela legal ou em fraude à lei, dependem de um mínimo de previsibilidade, algo que foi sumariamente afastado e deu lugar à lógica da espiral persecutória, em que se vive o hoje puro, como prévia de um amanhã inconcebível e incognoscível. É, de fato, estranho e contraditório que grupos dependentes do Estado trabalhem com afinco para a destruição deste Estado.

A única forma de superação das contradições é por meio da política, que não é atividade de santos nem de bandidos.

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Andrei Barros Correia em 21/05/16

DECLARAÇÃO

Eu, Fulano de Tal, brasileiro, casado, funcionário público, residente no município de Qualquer Canto, venho, expressamente, para finalidade de explicar e legitimar minha perplexidade ante o óbvio e previsível que adviria com o golpe de Estado que desejei ardentemente, declarar-me obtuso, ignorante de história antiga e recente e incapaz de pensamento autônomo.

Declaro, outrossim, que sou inteiramente guiado pela narrativa da imprensa, que me faz pensar como se comungasse dos interesses dos super ricos, a ignorar que cada classe tem seus próprios interesses, que são conflitantes com aqueles das demais e principalmente com as de cima.

Declaro-me, ainda, um tolo que é guiado pelo ódio e pelo fugaz e disfarçado anseio de ver os de baixo piores que eu e sempre mais distantes. Que a perspectiva de vê-los mais distantes fez-me esquecer que me distanciaria ainda mais dos mais de cima.

Sigo a declarar que minha memória praticamente inexiste, assim como as percepções que meus órgão sensoriais captam de nada me servem. Olho e não vejo; repito o que me disseram. Não converso com amigos ou próximos; nós todos despejamos uns sobre outros repetições das mesmas fontes. Fazemos ruído, enfim.

Declaro-me a prova acabada de que a figura do mocinho satisfeito, enunciado por José Ortega y Gasset – de quem ouvi falar, porque não leio – é o tipo social dominante. Disseram-me que este tipo é o menino mimado crescido, sujeito de todos os direitos e de nenhuma obrigação; menino mimado que pode invocar o direito à própria ignorância.

Declaro mais que, embora tenha tido educação formal, estudado primário e secundário em escolas de classe média alta, privadas, e tendo estudado curso superior gratuito em faculdade pública, isso de nada me serviu. Não vi o óbvio, ainda que óbvio fosse para quantos pensaram com suas próprias cabeças, mesmo para aqueles que não tiveram educação formal, como eu tive.

Declaro-me um assassino enrustido e envergonhado. Declaro que me move o moralismo, que é coisa próxima à vontade de burlar sem ser descoberto e de celebrar os que burlam sem se deixarem apanhar.

Afirmo que julguei mal o saque aos mais pobres que eu, algo que eu desejava às vezes até abertamente. Não que tenha deixado de o desejar, mas cria que seu resultado seria revertido para mim e não para os que estão acima de mim, o que afinal aconteceu. Declaro-me ignorante, enfim.

Fulano de Tal

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Andrei Barros Correia em 02/05/16

Os patrocinadores externos do golpe de Estado no Brasil querem receber sua parte primeiro e o mais rápido possível, afinal foram eles que proveram as condições materiais necessárias ao sucesso da empreitada. Os deuses têm pressa, além de sede, claro. O exemplo argentino não permite dúvidas ingênuas ou pseudo-ingênuas sobre a velocidade e a ferocidade destes processos atualmente.

A recolonização é fundamental para eles, pois suas situações econômicas e de poder geopolítico degradam-se rapidamente. Este golpe lhes trará um precioso reforço à tentativa de manutenção da situação assimétrica historicamente pouco variável.

Acontece que os agentes internos do golpe, tanto os diretamente atuantes, que são as corporações política, jurídica e mediática, quanto o público em geral, formam um grupo demasiado heterogêneo. Haverá, como é intuitivo, uma ordem de precedência no recebimento das recompensas pela missão e para alguns o pagamento não virá em dinheiro, pois é previsível que ele escasseie, tanto por efeito de contração econômica, quanto por concentração na apropriação.

Além de um grupo compacto que visa apenas a dinheiro e faz a interlocução direta com os patrocinadores externos, há outros grupos que dão necessário apoio à empreitada golpista e esperam receber suas partes. Aí que se começa a perceber o imenso problema que haverá com a desagregação política, econômica e social que se anuncia.

Uma parte significativa dos agentes golpistas da classe política e das corporações públicas privilegiadas não tem interesse que o país acabe-se de um dia para outro. Eles precisam que alguma inércia mantenha-se, porque o jogo político do controle do Estado dá-lhes vida e sustento material. Para esses, a guerra do fim do mundo não interessa; para esses, as eleições de 2018 ocorrerão e eles precisam de êxito nelas, para manter-se nas várias camadas do poder político institucional.

As propostas – escritas e faladas – do grupo próximo ao homem que assumirá a presidência da República brevemente, porém, não permitem ilusões. O programa deles é brutalmente regressivo e implicará rápido reempobrecimento de quem viu sua pobreza reduzir-se um pouco de doze anos para cá. Essa gente talvez não seja totalmente iludida pela imprensa mainstream à medida que vê, tangivelmente, as coisas piorarem.

Uma parte substancial do apoio ao golpe de Estado vem de grupos calcados no conservadorismo de costumes, em grande parte evangélicos. Esses grupos são majoritariamente de extração social pequeno médio classista e tiveram suas condições materiais sensivelmente melhoradas nos últimos anos, mesmo que a narrativa conservadora de costumes os conduza a crer na tese do patamar obtido não ser passível de regresso.

O regresso, todavia, ocorrerá, porque o projeto é concentrador de riquezas. Inicialmente, esses grupos conservadores estarão bem pagos e sentindo-se no exercício do poder com medidas de retrocesso em direitos de cidadania, civis e sociais. Dois anseios básicos dos conservadores serão atendidos: os que giram em torno às tolices da homofobia e da vontade de andar armado.

Porém, o prazer de poder discriminar impunemente, de insultar o diferente impunemente, de o agredir fisicamente, de dizer que o pobre o é porque quer e de andar com revólver na cintura, mesmo intenso e poderoso nas almas, não será hábil a comprar televisões de leds nem automóveis novos… Não bastará a sedução das pequenas almas com esses agrados por meio de regressos bárbaros.

Não será possível cooptar esses grupos por muito tempo apenas com a satisfação dos seus preconceitos de costumes, de nítida matriz religiosa. Ou seja, haverá a reivindicação da recompensa material, também, o que torna a equação difícil, porque esse grupo fortaleceu-se nas políticas redistributivas que agora ajuda a por abaixo. E, como já dito, o dinheiro tende a escassear e a vontade de aumentar a concentração na sua apropriação a aumentar.

O que se anuncia de política econômica, pelos golpistas, permite antever que se entrará numa brutal recessão, porque eles farão o clássico tratamento quimioterápico do moribundo, uma genialidade que tem resultado previsível. Reduzir o poder de compra dos que têm maior propensão marginal ao consumo aprofundará a recessão. Neste cenário, muitos apoiadores do golpe ficarão sem receber em algo mais tangível que abertura para suas inclinações mais fascistas, ou seja, em algo que não é dinheiro.

Os agentes políticos, principalmente os de níveis intermédios, não têm interesse nessa regressividade brutal, porque chega-se a um ponto em que as mentiras da imprensa não impedem o sujeito de perceber que está a piorar. E isso terá efeitos na forma em que votará, o que gera para o político riscos altos. O político de nível intermédio – que não conta com o financiamento amplíssimo dos reais donos do poder e a blindagem incondicional da imprensa – fica em situação delicada. Ele tem de cumprir a missão golpista e gostaria que a degradação não fosse tal a ponto de afastar os eleitores.

Será difícil encontrar soluções de compromisso nesse projeto golpista do corte rápido, da rapinagem rapidíssima e do subsequente caos. Será difícil evitar a desagregação das forças golpistas e quase impossível prever que rumo as coisas tomarão neste país riquíssimo tratado como se fosse uma micro república…

Nesse estado de coisas, tentar alguma conciliação será ocioso. Tentar a solução da enganação, a partir dos disponíveis serviços da imprensa mainstream poderá ser acreditar demais no poder da mentira. Haverá uma saída.

Os gestores do regime golpista a instalar-se usarão da eliminação de direitos fundamentais mais que o inicialmente necessário para divertir os anseios retrógrados de seus apoiadores pequeno burgueses. Mais que permitir a livre expansão da homofobia, a livre expansão do ódio por políticas públicas inclusivas de minorias, o regime terá de se servir instrumentalmente da eliminação de direitos essenciais.

O regime, para governar, terá de suprimir a livre comunicação, terá de suprimir direitos básicos de liberdade de expressão. No limite, terá de partir para a repressão física, por meios militarizados, com o judicial a dar roupagem jurídica à repressão.

Se isso pode ser exitoso a estas alturas, em um país de 200 milhões de pessoas, não sei.

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Andrei Barros Correia em 21/04/16

Urubu tá com raiva do boi
E eu já sei que ele tem razão
É que o urubu tá querendo comer
Mais o boi não quer morrer
Não tem alimentação

Não sei se Anauld Rodrigues e Chico Anysio, quando compuseram a letra cuja estrofe central está em epígrafe, tinham a percepção de quão genial ela é. Carregada de humor, ela aponta um aspecto central da nossa psicologia social, aquilo que mais fortemente nos caracteriza: a hipocrisia triunfalista.

A vitória sempre repetida das classes dominantes é algo de direito divino e portanto impassível de discussão. Não se admite que se aponte o golpe de mão, a ação ilegal, a chicana, o oportunismo que sempre há por trás dessas vitórias. Não basta ganhar, há de se ter o direito ao segredo da infâmia.

A deposição da Presidenta Dilma Rousseff no congresso nacional avança rapidamente e breve estará consumada. É um golpe de Estado evidente, porque não há crime de responsabilidade, algo que a lei exige para tal processo.

Os golpistas agem como se nosso governo tivesse forma parlamentar e tivéssemos o voto de desconfiança ou o recall. Agem como se a Presidenta fosse apenas chefe de governo e não chefe de Estado também. Desonestos até os píncaros, esquecem que a desconfiança no parlamentarismo derruba também o parlamento…

Mas, têm vergonha de serem chamados de golpistas! Os apoiadores do golpe nas camadas mádias e altas têm vergonha da palavra golpe. Essa gente age como se tivesse direito divino ao silêncio quanto às evidências. Pode-se engendrar um golpe de Estado, mas é proibido chamar-lhe por outro nome além daquele que escolherem os próprios golpistas.

É a reivindicação da exclusividade na construção da narrativa nacional. É um reflexo da suprema hipocrisia que nos acomete desde sempre, aquela hipocrisia em que tudo é permitido desde que não se descubra. Nossa roupa por excelência é o véu.

O triunfalismo é tão patético que mostra sua face canalha na vergonha frente ao estrangeiro. Os golpistas estão envergonhados de serem chamados pelo nome correto e sua obra pelo nome golpe de Estado por meios de imprensa de fora do Brasil. Sentem-se à vontade para externar seu desconforto com narrativas diferentes das suas próprias.

Isso não é algo novo, evidentemente. Há um paralelo interessante com os torturadores da mais recente ditadura havida no Brasil. Todos sabem quem são e o que fizeram; a coleção de atrocidades a que essa gente se entregou – por prazer, diga-se, porque era inútil estrategicamente – é conhecida; seus nomes são conhecidos.

A despeito das evidências, não aceitam serem chamados de torturadores, o que está em diametral oposição à grande valentia que ostentavam diante de vítimas fragilizadas. Nos atos de torturar, os torturadores afirmavam-se plenos, mostravam-se, falavam, riam, tudo ostensivamente. Isso é contrário à vergonha que sentem de serem chamados pelo que foram.

Outra coisa bastante sintomática é que essa gente – tanto os antigos, quanto os novos torturadores e golpistas – sente mais vergonha frente aos estrangeiros. Enquanto são chamados pelos nomes corretos no Brasil, o incômodo não é tanto e eles conseguem até lidar, porque estão certos do triunfo dos que dispõem da narrativa da imprensa mainstream.

 Mas, quando a imprensa estrangeira chama a deposição ilegal de golpe de Estado e seus executores e defensores de golpistas, o mal estar é generalizado. Beira o desespero, pela percepção imediata da impotência relativamente à construção de outras narrativas.

Essa vergonha do estrangeiro é sintomática de algumas coisas mais ou menos veladas. A primeira é o complexo de inferioridade, a face outra da covardia do valente. A desonra e a covardia são evidentes nesta vergonha do estrangeiro.

Fosse gente realmente valorosa afirmava o que faz a despeito de outras opiniões, ou apenas as desprezava. Mas os covardes não desprezam, eles reagem desesperados, perplexos e servis, a suplicarem que as narrativas os protejam, que acolham suas mentiras sobre si mesmos, pois sempre foram tão obedientes.

Eles sentem-se traídos pelos patrões a quem serviram bem e lealmente. Eis o segundo aspecto: a vergonha do estrangeiro revela quem são os patrões desta gente golpista. Funciona de baixo para cima, como a vergonha da criança diante dos pais, ou a do cão que urina no tapete da sala. A vergonha do golpistas é frente ao seu dono que não lhe deu proteção discursiva quando ele agia para seu serviço.

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Andrei Barros Correia em 18/04/16

Como herança cultural e paradigma sempre invocado, a farsa dualista platônica nos teria bastado. Mas, a ela acrescentaram-se camadas de preconceitos semíticos e rudimentos de um teísmo de lei e tribunal. É claro que essa mistura fermentou bem e deu ao mundo nossa celebrada cultura ocidental.

Tão evidente quanto o triunfo deste modelo são suas consequências na formação do homem médio. Sofistas metafísicos mal instruídos são a matéria humana mais disponível que há. Eles são disputadores a afirmarem uma crença sincera na dialética quase lógica que os guia. São sinceros, isso é bem verdade, quando estão a mentir.

Não é a incultura o que me move a escrever ou o que me causa repugnância neste tipo médio que pulula, como a infestar o mundo de um ser cujo modelo é o advogado. É sua crença no que chamam convencimento. Ao mesmo tempo em que instintivamente e inconscientemente visam a poder e a dinheiro, afirmam uma racionalidade que de tão impregnada de moralismos é mesmo racional, sob esta perspectiva.

O debate que visa ao convencimento é uma heresia, no fundo, além de prazer do vulgo. Convencer é o prazer de levar o outro a repetir o que o convencedor já está a repetir. A busca pelo mínimo divisor comum leva ao que ela se propõe: ao mínimo. Enquanto os disputadores procuram convencer-se mutuamente, esquecem de buscar perceber mais claramente quais são seus interesses e em que eles se contrapõem aos outros interesses.

O bom disputador deve, necessariamente, achar que o absurdo não existe, ou, no mínimo, achar que ele é um estado quimérico que pode ser afastado pela sofística. Acontece que a sofística não é uma técnica de remoção de brumas, mas um meio de socialização por autocelebração e crença na inexistência do conflito de interesses.

O convencimento entende-se como uma forma de sedução; uma conquista; a atração de alguém para um discurso; a obtenção da adesão a uma narrativa. Essa é uma lógica de tribunal, que emula uma lógica bem própria de solicitação ao deus que habitava a árida faixa entre o Morto Mar e o mar vivo. Estranha religiosidade que se inicia por pedir as coisas ao deus e se esforçar por o convencer de algo, sempre em detrimento de outrem.

Essa racionalidade irracional é a maior garantia da perenidade do sistema. Haverá pontos e contrapontos, mas nunca pontos fora do campo pre-estabelecido, exceto pelos fascismos enfurecidos, talvez. O sistema prevê a dualidade operante na lógica do convencimento e gera hordas de perplexos com a ineficácia fundamental daquilo em que continuarão a crer.

Esse modelo implica crer nas noções de limite e de impossibilidade, noções cujo transplante das ciências naturais para as humanas é um crime de lesa epistemologia. O humano não conhece limites, nem impossibilidades; sua única impossibilidade é a imortalidade e isto não é humano, é biológico.

O ser médio atual, cujo protótipo é o rábula destituído de conhecimentos históricos mínimos, tem vergonha em quase tudo que faz; e tem medo. Por isso surpreende-se, assusta-se, mas não deixa de ser o que é, porque não lhe foi ofertado qualquer outro modelo a seguir. Ora, a causa da surpresa, de qualquer uma, é a ignorância e isto não é dito aqui como insulto coletivo ou por anseio de escandalizar.

Surpreender-se decorre de ignorar e é muito significativo que um dos locais discursivos mais frequentes seja precisamente a surpresa. O mundo vive de surpresas, umas após outras, a se fazerem esquecer nesta sucessão vertiginosa. A surpresa suspende, conduz a um torpor da suspensão da realidade, ao torpor da aparência do tempo parado.

Essa figura do tempo parado – uma impossibilidade fundamental – é reveladora de quanto a história ausentou-se do ferramental de pensamento. A suspensão do temporal, por choques sucessivos de surpresas, acontece na cabeça do homem médio, tamanha sua aversão pela realidade, que nada mais é que história, ou seja, um processo que se autorealiza.

A surpresa que acontece no não convencimento é também uma forma infantilizada de estar na vida. É semelhante à surpresa da criança à resistência à sua pretensão de apossar-se das coisas das outras crianças. Mas o homem médio acredita-se irresistível sedutor e portador das melhores armas sofísticas, o que só pode decorrer de imensa falta de autocrítica.

As coisas mostram-se.

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Andrei Barros Correia em 12/04/16

Em 12 de outubro de 1936 dava-se a Festa da Raça, na Universidade de Salamanca, com a presença, entre vários outros, do Reitor Miguel de Unamuno, do Bispo de Salamanca Plá y Daniel, da senhora Franco e do general Millán Astray.

Unamuno, convém aponta-lo, havia apoiado a invasão da República pelas tropas africanas do general Francisco Franco. E o novo regime nazista já se tinha consolidado por ocasião desta celebração da festa da raça na Universidade de Salamanca.

Astray ataca violentamente a Catalunha e o País Vasco nesta ocasião: “… cánceres en el cuerpo de la nación. El fascismo, que es el sanador de España, sabrá cómo exterminarlas, cortando en la carne viva, como un decidido cirujano libre de falsos sentimentalismos.” Depois do ataque racista vil, proclamou e deu vivas à morte, o que era seu característico.

Miguel de Unamuno era vasco; o Bispo Plá y Daniel era catalão. E ambos tinham sido favoráveis à derrubada da República pelas tropas nazistas de Franco, que era galego! Do ponto de vista estritamente racional, o ataque de Astray a catalães e vascos era, além de uma imensa e desnecessárias descortesia, uma estupidez.

Unamuno reagiu, mesmo a saber os riscos implicados. E reagiu tão elegantemente quanto firmemente: “Dejaré de lado la ofensa personal que supone su repentina explosión contra vascos y catalanes. Yo mismo, como sabéis, nací en Bilbao. El obispo, lo quiera o no, es catalán, nacido en Barcelona.”

Dejaré de lado la ofensa personal! É extraordinário. A seguir, disse o principal, que não ficaria calado depois de ouvir o necrófilo e insensato grito “Viva a Morte!” e disse que o general Astray era um inválido de guerra e que: “Me atormenta el pensar que el general Millán Astray pudiera dictar las normas de la psicología de la masa. Un mutilado que carezca de la grandeza espiritual de Cervantes, es de esperar que encuentre un terrible alivio viendo cómo se multiplican los mutilados a su alrededor.”

Unamuno morreu, provavelmente de desgosto, pouco após o incidente. Após sua refinada objeção a Astray, este proclamou o célebre abaixo a inteligência, viva a morte. Fez-se confusão, Unamuno ainda disse que venceriam porque tinham força bruta, mas não convencerão. Foi, ao final da cerimônia que se tinha tornado confusão, protegido pela senhora Franco, mas sofreu prisão domiciliar. O general Astray venceu, como se sabe, e venceu por décadas.

As últimas palavras de Unamuno nesta ocasião, referentes à não possuírem os nazistas razão e direito na luta – mas apenas força bruta – inserem-se na grande corrente do racionalismo de origem grega, cantado com beleza no teatro trágico. Unamuno diz a Astray o que Sófocles fez Antígona dizer ao tio dela a propósito da sepultura a ser dada a Polinices.

Este e outros episódios – os acontecidos e os ainda não consumados – provam que a razão e o direito não são condições necessárias ou mesmo eficazes para a vitória. Isto, com relação a vitórias bélicas, pode soar muito evidente; todavia, deveria passar a soar, senão evidente, bastante plausível, também para vitórias políticas.

A força bruta é mais intensa que as outras que contendem no palco político e social e ela não consiste somente na força física. A força bruta intelectual – aquela que provém das mentes mais vazias – é bastante apta a ditar as normas da psicologia das massas. Essa aptidão provém dela ser muito mais naturalizante que humanizadora, e propor coisas muito naturais: como matar, segregar, torturar…

A força bruta intelectual criou ambiente propício a um golpe de Estado no Brasil; ele está em curso. De tão urgente para os interesses saqueadores externos, abriu-se a estrebaria e soltaram-se dois cavalos a correrem paralelamente. O que chegar primeiro entrega o serviço e o único compromisso mútuo dos cavalos é não se atrapalharem um ao outro. O que for mais rápido atende aos interesses entreguistas: congresso ou judiciário.

Para obter apoio nas classes intermédias, a psicologia de massas à Millán Astray foi posta em difusão e estimulada pela imprensa. Este, a par com os destruidores efeitos econômicos e sociais do golpe, será o maior preço a ser pago depois. O fascismo histério e profundamente ignorante foi instilado nas camadas sociais que representam o terreno mais fértil para este tipo de pensamento rasteiro e conduzido de fora para dentro.

Mesmo que se impeça ou que se retome o poder político e se restabeleça o Estado de Direito após o golpe, será dificílimo desfazer os efeitos destruidores desta psicologia de massas fascista ditada pela imprensa para os estratos medianos e muito bem assimilada por eles.

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